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Sobre a impossibilidade de dar adeus à amiga que partiu

A maioria das pessoas tem amigos de longa data, quase sempre da juventude, e, à medida que envelhece, se ressente porque seu círculo de relações vai encolhe...

Sobre a impossibilidade de dar adeus à amiga que partiu
Sobre a impossibilidade de dar adeus à amiga que partiu (Foto: Reprodução)

A maioria das pessoas tem amigos de longa data, quase sempre da juventude, e, à medida que envelhece, se ressente porque seu círculo de relações vai encolhendo. Sou muito sortuda por ter feito amigas na maturidade e a coluna de hoje é dedicada a uma delas: a médica Claudia Burlá, que partiu precocemente, aos 64 anos, no dia 16 de junho. Geriatra, com doutorado em bioética e uma referência nacional na área de cuidados paliativos, foi uma das primeiras entrevistadas do programa 50 Mais CBN, que eu ancorava com o médico e gerontólogo Alexandre Kalache e a também jornalista Mara Luquet. Fui conferir a data: 20 de junho de 2015. Aos poucos, de entrevistada tornou-se amiga. Impossível não se encantar com sua inteligência e paixão pela profissão. Sobre os cuidados paliativos – que tantas vezes abordei neste espaço – tinha uma declaração lapidar: A geriatra Claudia Burlá: “É quando se pensa que não há mais nada a fazer que os cuidados paliativos podem fazer toda a diferença” Mariza Tavares “É quando se pensa que não há mais nada a fazer que os cuidados paliativos podem fazer toda a diferença para a pessoa até o final da sua vida”. Não eram apenas palavras. Era o seu dia a dia como médica, palestrante, professora, mentora. Nos últimos dias, reli cinco anos de mensagens trocadas que estavam armazenadas em meu celular. Desde março de 2021, quando escrevíamos sobre o clima de medo e impotência durante a pandemia, até o fim de maio deste ano, quando organizamos o nosso último jantar juntas. Não consigo imaginar esse vazio de comunicação. Dividíamos impressões sobre os congressos aos quais íamos juntas ou assistíamos on-line. Compartilhávamos artigos – e, generosamente, ela repassou muitas das minhas colunas do g1 para outros profissionais de saúde – e, claro, dicas de filmes, séries, livros. Eu pedia indicações de médicos para amigos, ou de especialistas para serem entrevistados, e sabia que qualquer nome que Claudia sugerisse estava entre os melhores na sua especialidade. Nosso programa preferido era ir a um bom restaurante japonês, onde, invariavelmente, pedia uma caipirinha, porque era uma conhecedora de boas cachaças. Em 2022, o diagnóstico de um câncer no cérebro a obrigou a se submeter a uma cirurgia delicada. Ela me contou que estava mergulhada na elaboração das “ressignificações necessárias para sobreviver com a dignidade que sempre havia defendido”. Agora vivia o papel de paciente e constatava, com a lucidez de sempre: “Ter um rótulo com o nome de uma doença grave é muito pesado, mas sigo sendo a minha protagonista e participando ativamente de todas as decisões”. Aos poucos, foi retomando suas atividades, inclusive de atendimento no consultório. Em novembro de 2024, seus 63 anos foram comemorados com amigos recentes e antigos (claro que eu estava lá!). Em setembro de 2025, fizemos um bate-papo no lançamento do meu último livro, A vida depois dos 60: prepare-se para criar a sua melhor versão. Ela havia lido a primeira – e mais que imperfeita – versão da obra, fazendo inúmeras sugestões valiosas. Dona de uma curiosidade sem fim, começou a ter aulas de pandeiro e, recentemente, havia feito um curso de IA na medicina. No entanto, 2026 trouxe más notícias. O câncer tinha se espalhado novamente no cérebro. Claudia encarou uma nova cirurgia e chegamos a nos encontrar algumas vezes, mas, no começo deste mês, o quadro se deteriorou rapidamente. Partiu seguindo suas próprias regras, senhora do seu destino. Em seu velório, todos repetiam as mesmas palavras para lembrá-la: rigor e solidez profissional, integridade, generosidade. Gostaria que tivéssemos tido forças para transformar aquele momento numa celebração. Quero deixar aqui uma recordação que serve de guia para todos nós: o trecho de uma coluna que escrevi quando ela participou da edição do GeriatRio de 2019. Em sua apresentação, disse ter buscado inspiração na pintora Frida Kahlo, que morreu com apenas 47 anos, após suportar dores atrozes resultantes de uma poliomielite e de um grave acidente de trânsito. Eis o texto: “O nome Frida resume o que se relaciona ao processo de envelhecimento. O F é de funcionalidade, a potência do corpo que, com a velhice, vai decaindo e abrindo a guarda para que doenças ocorram e haja um declínio progressivo. O R é de resiliência, que implica aceitação e adaptação em relação às novas situações e restrições. O I é de insuficiência, quando se caminha para um quadro irreversível, com um dia a dia de limitações até a dependência total. O D é de dignidade, o desejo de todo ser humano e que pode ser comprometido ao longo da nossa jornada. Por fim, o A é de autonomia que, após a saúde plena, é o maior patrimônio que temos. Significa viver de acordo com minhas regras e meus valores”. Esse é o legado de Claudia Burlá, que, tenho certeza, muitos dos que a conheceram tentarão manter vivo. Mariza Tavares e Claudia Burlá no lançamento do livro A vida depois dos 60 – prepare-se para criar a sua melhor versão Acervo pessoal

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