Pai de santo de SP leva ensinamentos sobre Candomblé para novo álbum de Anitta e participa de clipe
Babalorixá de SP leva ensinamentos sobre o Ori para novo álbum de Anitta Uma mensagem enviada por Anitta no Instagram deu início à participação do babalor...
Babalorixá de SP leva ensinamentos sobre o Ori para novo álbum de Anitta Uma mensagem enviada por Anitta no Instagram deu início à participação do babalorixá e antropólogo Rodney William Eugênio, conhecido como Pai Rodney de Oxóssi, em EQUILIBRIVM II, oitavo álbum de estúdio da cantora, lançado neste mês. Anitta, que já acompanhava os conteúdos produzidos por Rodney sobre as religiões de matriz africana, entrou em contato para convidá-lo a colaborar no projeto. O projeto audiovisual apresenta uma narrativa baseada em símbolos, referências culturais e elementos espirituais. Para a construção da segunda parte do álbum, Rodney foi convidado a contribuir diretamente com o desenvolvimento do roteiro, revisar falas e orientar a representação dos elementos do Candomblé. Formado em Ciências Sociais, mestre em Gerontologia e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Pai Rodney de Oxóssi é babalorixá e comanda o terreiro Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, em Mairiporã, na Grande São Paulo, espaço dedicado ao Candomblé e à preservação da ancestralidade afro-brasileira. Segundo Rodney, o convite de Anitta chegou por meio de uma mensagem nas redes sociais. Durante a conversa, a cantora contou que já acompanhava os conteúdos publicados por ele e os vídeos em que compartilhava conhecimentos sobre as religiões de matriz africana. Anitta e o Babalorixá Rodney William na produção do álbum dAgente Produções Artísticas A participação de Rodney envolveu uma atuação mais ampla do que a presença em cena. Segundo ele, a cantora apresentou ideias iniciais e pediu que ele ajudasse a desenvolver um roteiro que unisse os elementos espirituais, culturais e intelectuais presentes na narrativa. “Foi uma participação efetiva. Ela me falou das ideias, me pediu para desenvolver um roteiro e, depois, nós fizemos alterações nesse roteiro. Trouxemos elementos intelectuais e rituais orgânicos que deram base a tudo que foi dito ali”, explica. Segundo o babalorixá, referências de pensadores negros e indígenas também foram incorporadas às falas dos personagens. “Você vai ver na fala da Pomba Gira que tem Angela Davis, na fala da Preta Velha tem Conceição Evaristo, e na fala do Caboclo aparecem Ailton Krenak e Nego Bispo”, afirma. 🕊️ O que é o Bori? No álbum, Rodney aparece conduzindo um ritual de Bori, uma das cerimônias importantes do Candomblé, dedicada ao fortalecimento do Ori, conceito que representa a cabeça, a consciência e o destino de cada pessoa. A palavra Bori significa “oferenda à cabeça”. Dentro da tradição, o ritual busca fortalecer o Ori, considerado fundamental para a relação do indivíduo consigo mesmo e com sua trajetória espiritual. “Se o Ori não permitir, nada acontece. O Bori fortalece a consciência e desperta a capacidade que cada pessoa tem de conduzir a própria caminhada”, explica Rodney. 🎶🎭 A cena do álbum A participação do babalorixá aparece em uma sequência que começa com uma animação de Anitta deitada em uma cama, com flores e frutos saindo de sua boca. Ao redor dela, aparecem elementos simbólicos, como um coração atravessado por um prego e folhas em formato de microfone. Depois, a cantora entra em uma casa de barro de taipa, com telhado de palha, onde encontra Rodney. Vestida de branco e usando guias, Anitta participa de uma cena em que o babalorixá fala sobre responsabilidade pessoal, escolhas e a importância do cuidado com o próprio Ori. No diálogo, Rodney explica que nem tudo que acontece na vida deve ser atribuído a forças externas, como feitiço ou inveja, e destaca a importância de assumir o protagonismo da própria trajetória. A cena segue com a realização do Bori, com flores brancas e elementos tradicionais do ritual. Durante a sequência, Rodney reforça a importância de reconhecer a força do próprio Ori. “Assuma a grandiosidade do seu Ori”, afirma o babalorixá. A ambientação escolhida também carrega significados. A casa simples de taipa, as frutas, flores, comidas rituais, velas e outros elementos presentes na tradição afro-brasileira ajudam a construir uma representação ligada à memória e à ancestralidade. Para Rodney, o cenário contribui para romper estereótipos sobre os terreiros e mostrar a riqueza cultural existente nesses espaços. “Mesmo na simplicidade, o terreiro guarda um patrimônio imensurável. Ali existe memória, ancestralidade, cultura e uma força que sustentou gerações de pessoas negras ao longo da história”, diz. Representatividade e combate ao preconceito Além da representação religiosa, o antropólogo avalia que EQUILIBRIVM II pode ampliar o debate sobre diversidade e intolerância religiosa. Para ele, quando uma artista com projeção internacional incorpora esses elementos em sua obra, contribui para aproximar o público de tradições historicamente alvo de preconceito. “Quando uma artista do tamanho da Anitta mostra a beleza das religiões de matriz africana, ela faz um manifesto contra o racismo e contra todas as formas de discriminação. A curiosidade leva ao conhecimento, e o conhecimento afasta o preconceito”, afirma. Rodney destaca ainda o cuidado da cantora ao construir a narrativa, que não se limita ao Candomblé, mas também dialoga com diferentes culturas e tradições. “Desde o primeiro momento, ela teve esse cuidado de transmitir essa mensagem, passando por elementos concretos do terreiro, por outros oráculos, como o Tarô, pela cultura dos povos ciganos e de tantos outros povos que foram marginalizados ao longo da história”, comenta. Para Rodney, Anitta demonstra ter consciência sobre o alcance do próprio trabalho e sobre a força de sua atuação como artista. Segundo ele, esse projeto e outras produções da cantora revelam uma maturidade em compreender o impacto que sua obra pode alcançar e as transformações que é capaz de promover. Pai Rodney de Oxóssi colaborou com EQUILIBRIVM II, novo álbum de Anitta. dAgente Produções Artísticas O babalorixá avalia ainda que, ao apresentar as religiões de matriz africana com respeito e profundidade, a cantora amplia uma discussão que vai além da religiosidade. Para ele, quando uma artista com a projeção de Anitta mostra a beleza e a verdade dessas tradições, ela se posiciona de forma efetiva contra diferentes formas de discriminação e preconceito. Rodney destaca que a narrativa também aborda questões relacionadas à força feminina, colocando a mulher como elemento central da construção do projeto.