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'Os olhos da fome eram os meus': a história de Carolina Maria de Jesus, enredo da Unidos da Tijuca

Enredo e samba: Unidos da Tijuca homenageia a escritora Carolina Maria de Jesus A escritora Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes da literatura bras...

'Os olhos da fome eram os meus': a história de Carolina Maria de Jesus, enredo da Unidos da Tijuca
'Os olhos da fome eram os meus': a história de Carolina Maria de Jesus, enredo da Unidos da Tijuca (Foto: Reprodução)

Enredo e samba: Unidos da Tijuca homenageia a escritora Carolina Maria de Jesus A escritora Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes da literatura brasileira, terá sua trajetória exaltada pela Unidos da Tijuca, escola que vai homenageá-la no carnaval do Rio este ano nesta segunda-feira (16). A obra de Carolina, no século passado, escancarou a fome e a miséria que muitos queriam ignorar. O enredo leva o próprio nome da autora brasileira, que também foi compositora, poetisa e uma das primeiras grandes vozes negras da literatura nacional. Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, onde viveu até lançar 'Quarto de Despejo' Divulgação Nascida em 1914, em Sacramento (MG), Carolina enfrentou desde cedo uma vida de dificuldades. Filha de pais analfabetos, frequentou a escola formal por apenas dois anos, mas desenvolveu um amor profundo pela leitura e pelas palavras, que mais tarde se tornariam sua ferramenta de expressão e resistência. Em 1937, já adulta, mudou-se para São Paulo, onde viveu na então favela do Canindé, às margens do Rio Tietê, sustentando-se como catadora de papéis para criar os três filhos. A favela do Canindé foi o cenário onde Carolina escreveu seu primeiro livro, "Quarto de Despejo — Diário de uma Favelada". Enquanto registrava sua rotina em papéis retirados do lixo ou recebidos em doações, ela não imaginava que a publicação se tornaria um sucesso internacional, traduzido para 14 idiomas, e que lhe daria dinheiro suficiente para deixar a comunidade e comprar uma casa. O livro é um diário autobiográfico no qual Carolina relata a rotina como catadora e mãe solo de três crianças. Sem eletricidade, morando em um barraco de madeira, ela descreve com detalhes como a pobreza extrema pode desumanizar alguém. Carolina Maria de Jesus teve diário transformado em livro traduzido em 14 idiomas Arquivo/Reprodução Em um trecho, por exemplo, conta que sua cama tinha pulgas e que não conseguia lavar adequadamente as roupas porque faltava dinheiro para o sabão. Muitas vezes, precisava decidir entre higiene ou comida para ela e os filhos. Em outras, sequer tinha a chance de escolher e enfrentava a fome diretamente. Ao longo do livro, Carolina faz diversas críticas políticas e afirma que o Brasil deveria ser governado por alguém que já tivesse passado fome. “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo e nas crianças”, escreve. Em outra passagem, relata o Dia das Mães e descreve a situação: “Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no frigorífico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje pus os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar.” Dias depois, em 13 de maio, data que marca a Abolição da Escravidão, ela escreve que a escravidão do preto e do pobre, naquele momento, era a fome. Em outro trecho, quando não havia nada para comer, Carolina registra que pensou na morte. “Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó.” No samba-enredo da Tijuca, versos como “Os olhos da fome eram os meus” e “Meu quarto foi despejo de agonia” fazem referência direta às condições precárias que a escritora enfrentou. Com o sucesso do livro, Carolina e a família deixaram a favela do Canindé. Ela morreu em 1977, em decorrência de asma, mas não antes de publicar outras obras e continuar escrevendo poesias. O reconhecimento, porém, veio com limites. Esperavam que Carolina falasse apenas da favela e da miséria. Quando tentou ir além — escrever outras histórias, peças e poemas — foi deixada de lado. Fora do papel que lhe reservaram, passou a ser silenciada. Cartaz do enredo da Unidos da Tijuca para 2026 Reprodução Décadas após sua morte, Carolina Maria de Jesus segue sendo celebrada e estudada. Em 2021, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu-lhe título de Doutora Honoris Causa in memoriam, reconhecimento simbólico e acadêmico pela sua contribuição à literatura e à compreensão das desigualdades sociais no Brasil. Veja a letra do samba Muda essa história, Tijuca! Tira do meu verso a força pra vencer Reconhece o seu lugar e luta Esse é nosso jeito de escrever Eu sou filha dessa dor Que nasceu no interior de uma saudade Neta de Preto Velho Que me ensinou os mistérios Bitita cor, retinta verdade Me chamo Carolina de Jesus Dele herdei também a cruz Dele herdei também a cruz Olhe em mim, eu tenho as marcas Me impuseram sobreviver Por ser livre nas palavras Condenaram meu saber Fui a caneta que não reproduziu A sina da mulher preta no Brasil Os olhos da fome eram os meus Justiça dos homens não é maior que a de Deus Meu quarto foi despejo de agonia A palavra é arma contra a tirania Sonhei sobre as páginas da vida Ilusões tolhidas no sistema algoz Que tenta apagar nossa grandeza Calar a realeza que resiste em nós Dos salões da burguesia aos barracos do Borel Onde nascem Carolinas Não seremos mais os réus Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado Meu país nasceu com nome de mulher Sou a liberdade, mãe do Canindé

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