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Mulher que viveu nas ruas após relacionamento abusivo transforma recomeço em viveiro e associação no Acre: 'Autonomia'

Alcenira de Almeida Silva trabalha com plantas e como segurança em eventos no Acre Arquivo pessoal De dia, as mãos cuidam de plantas, jardins e mudas. À noit...

Mulher que viveu nas ruas após relacionamento abusivo transforma recomeço em viveiro e associação no Acre: 'Autonomia'
Mulher que viveu nas ruas após relacionamento abusivo transforma recomeço em viveiro e associação no Acre: 'Autonomia' (Foto: Reprodução)

Alcenira de Almeida Silva trabalha com plantas e como segurança em eventos no Acre Arquivo pessoal De dia, as mãos cuidam de plantas, jardins e mudas. À noite, o trabalho é garantir a segurança de eventos e feiras. Entre um turno e outro, a acreana Alcenira de Almeida Silva, de 47 anos, construiu uma história marcada por recomeços. A trajetória da empreendedora passa pela jardinagem e paisagismo, pela criação de uma associação voltada ao fortalecimento de pequenos negócios e também por um período difícil, quando precisou morar na rua depois de decidir deixar um relacionamento abusivo de 17 anos. Hoje, o nome do viveiro que ela criou, o Renascer Flores, resume um pouco do caminho percorrido até então. "A gente tem que se virar de tudo quanto é de jeito para poder pagar as contas e continuar vivendo, né?! Eu trabalho para isso", disse. 📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp EcoFlores: Evento reúne empreendedores do Acre, Bolívia e Peru no Horto Florestal O primeiro contato com a jardinagem surgiu de forma despretensiosa, em meados de 2006, após o convite de uma amiga para fazer um curso de paisagismo. O interesse virou profissão a partir de 2010. Desde então, Alcenira passou a participar de associações, aperfeiçoou os conhecimentos e começou a vender plantas nas feiras da Economia Solidária. A participação nesses espaços despertou outro desejo: o de conquistar independência financeira. Depois de alguns anos, decidiu deixar a associação da qual fazia parte para investir em um projeto próprio. Foi assim que nasceu o viveiro Renascer Flores, que trabalha com mais de 100 espécies entre plantas ornamentais, medicinais e frutiferas. Quando eu comecei a trabalhar, eu via a necessidade da minha autonomia financeira. Então eu comecei a viver disso. Associação Assemeart foi criada em julho de 2022 com o objetivo de proporcionar autonomia financeira e integrar autônomos no Acre Arquivo pessoal Coletivo Mas o sonho não parou ali. Anos depois, ao lado de uma amiga, ela criou a Assemeart, associação fundada em julho de 2022 que reúne empreendedores de diferentes segmentos. Embora seja aberta a todos e também exponha itens de artesanato, alimentação, movelaria e brechó, os trabalhos têm como foco a jardinagem. A direção, por sua vez, é feita por mulheres. “Eu e a minha amiga tínhamos um sonho de formar uma outra associação que desse oportunidade para várias pessoas, para vários segmentos. E formamos a Assemeart, que é uma associação com vários segmentos. Eu faço parte da diretoria e a gente toca o projeto porque precisávamos nos inserir no mercado de trabalho e ter respaldo, deixar tudo legalizado”, falou. Associação Assemeart promove eventos rotineiros de artesanato e jardinagem no Acre Arquivo pessoal Jardinagem em números Além de transformar espaços e repensar a relação entre a natureza e os seres humanos a partir do cuidado com as espécies, a jardinagem também movimenta a economia verde no país. Segundo o Instituto Brasileiro de Floricultura, o mercado de flores e plantas ornamentais movimentou cerca de R$ 21 bilhões em 2024, um crescimento de 9,95% frente ao ano anterior, quando o montante era de R$ 19 bilhões. Ainda conforme o último relatório, as flores em vaso, especialidade da Assemeart, são responsáveis por 58% do faturamento, seguido de plantas ornamentais (24%) e flores de corte (15%). Se analisado por região, o Norte contribui com mais de R$ 424 milhões no Produto Interno Bruto (PIB) da cadeia, gerando mais de 9,7 mil empregos e tendo 436 produtores em 837 hectares de áreas de produção. Cenário local No Acre, a atividade tem ganhado espaço em feiras, eventos e projetos de urbanização, abrindo oportunidades para pequenos empreendedores, objetivo este que nutre a Assemeart que começou com sete associados em 2022. Atualmente, o número subiu para 20 integrantes fixos e conta ainda com parceiros que participam das feiras promovidas pelo grupo. Os eventos funcionam como uma vitrine para quem precisa divulgar produtos e conquistar clientes. No caso das plantas, a preferência é justamente pelas mudas envasadas, o que facilita o transporte até os eventos e, inclusive, na hora de o cliente levar o produto. Entre 30 e 40 famílias participam ativamente das feiras organizadas pela associação. A ideia, segundo Alcenira, é fazer com que todos os parceiros ligados às feiras trabalhem formalmente. Para isto, a Assemeart atua com um cadastro simples. “Cada um tem o seu espaço e aí a gente monta a feira onde organizamos por segmentos também. A gente faz a divulgação tanto nas redes sociais como na venda direta, de frente para a pessoa mesmo”, frisou. LEIA TAMBÉM: Arraiá Delas reúne mais de 60 empreendedoras e agricultoras familiares em Rio Branco Acre investiu menos de 20% dos recursos federais destinados ao combate à violência contra mulher Acre tem maior taxa de feminicídios do país em 2025 Assemeart organiza feiras de jardinagem, artesanato, movelaria e alimentação em diversos pontos de Rio Branco Arquivo pessoal Os opostos se atraem A rotina de Alcenira é dividida entre atividades que, à primeira vista, parecem opostas. Enquanto a jardinagem ocupa principalmente os dias, o trabalho como segurança costuma acontecer à noite e nos fins de semana. “É ter que se virar nos 30 porque eu tenho um viveiro que dá trabalho. Dá muito trabalho cuidar das plantas. Eu tenho que conciliar uma coisa com a outra porque, normalmente, o trabalho de jardinagem é durante o dia, e a segurança é mais de noite. Quando converge uma coisa com outra e eu tenho que fazer segurança durante o dia, já coloco outra pessoa para me substituir e ficar nas plantas e vice-versa. Assim vou conciliando”, falou. Alcenira Almeida também trabalha como segurança na associação Elas Fazem Acontecer, coletivo formado exclusivamente por mulheres no Acre Arquivo pessoal Foi um dos períodos mais difíceis da vida que acabou aproximando ela da área de vigilância. Depois de anos vivendo em um relacionamento abusivo, ela decidiu sair de casa. Mãe de três filhos, abriu mão dos bens que tinha para tentar recomeçar. “Eu já estava tão cheia. Eu peguei e disse assim: ‘fica com a casa, fica com o que tu quiser, que eu tô indo embora’. Peguei minha mochilinha e fui morar na Praça da Revolução, na rua”, rememorou. Sem ter onde morar, passava as noites sob as barracas montadas pelos feirantes. Os vigilantes que trabalhavam na região já a conheciam por causa das feiras. “Eu estava começando a trabalhar nas feiras, levava pouquinha coisa, não tinha muitos produtos para vender. Eu ia mais para ajudar as amigas, aí elas me pagavam do jeito que podia, e eu fui começando. E aí eu chegava de noite e eu ficava debaixo das barraquinhas das meninas, botava um TNTzinho, ficava lá quietinha, e eles me perguntavam: ‘mulher, tu não vai para casa, não?’. Eu dizia: ‘não, que amanhã de manhã cedo eu vou ter que estar aqui de novo, então vou ficar por aqui'. Tudo mentira", recordou. Alcenira Almeida também atua como segurança em diversos eventos pelo período noturno; entrada no ramo ocorreu devido à experiências morando nas ruas em Rio Branco Arquivo pessoal A experiência traumática acabou abrindo portas para uma nova fonte de renda. Aos poucos, Alcenira começou a trabalhar como vigia em eventos, ganhou experiência e montou a própria equipe, formada prioritariamente por mulheres. “Hoje você sabe que um salário mínimo não dá para manter uma casa. Então, normalmente as pessoas têm que arrumar uma outra renda, fazer um bico para poder viver melhor. As pessoas sempre me viam trabalhando e perguntavam se tinha vaga para trabalhar comigo à noite. Aí agora eu já tenho os contatos das pessoas e dependendo do evento, da quantidade que é pedida, eu monto minha equipe”, explicou. Renascer Flores fica no Loteamento Santa Luzia, em Rio Branco Arquivo pessoal Recomeços A história de Alcenira é feita de diferentes ofícios. Além da jardinagem e da segurança, ela também trabalha com artesanato, bordado, crochê, macramê e outros serviços. Filha da zona rural, cresceu aprendendo que era preciso encontrar diferentes maneiras de garantir o sustento. Ao longo de cinco anos após ir para as ruas, ela morou em oito lugares diferentes. Depois disto, conseguiu alugar um apartamento melhor e, mais tarde, retornou para casa ao descobrir que os filhos haviam sido deixados sozinhos pelo pai durante a pandemia de Covid-19. Foi justamente nesse período que ela fortaleceu o próprio negócio e transformou a frente da residência em uma pequena loja de plantas. “Fui trabalhando no meu viveiro próprio. Tinha dias que eu vendia bem, R$ 600 por dia, e fui me animando, ficando mais à vontade para trabalhar. Na pandemia tive que ser mais forte ainda porque eu já estava me esforçando, tive que me esforçar mais ainda”, frisou. Entre jardins, feiras, turnos de vigilância e reuniões da associação, Alcenira segue cultivando o mesmo objetivo que a fez começar anos atrás: criar oportunidades para si e para outras mulheres. Assim como as mudas que leva para as feiras, ela continua fazendo do próprio caminho um exercício constante de recomeço. Para complementar a renda, Alcenira Almeida também trabalha com crochê e artesanato, produtos estes que também expõe em feiras de Rio Branco Arquivo pessoal VÍDEOS: g1

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