Gari transforma rotina de trabalho em mensagens de gratidão nas redes após infância marcada por perdas e violência
Gari transforma rotina de trabalho em mensagens de gratidão Quem acompanha os vídeos de Uilma Lopes Santos, de 37 anos, nas redes sociais costuma encontrá-la...
Gari transforma rotina de trabalho em mensagens de gratidão Quem acompanha os vídeos de Uilma Lopes Santos, de 37 anos, nas redes sociais costuma encontrá-la sorrindo antes mesmo do sol nascer. De uniforme de gari e celular na mão, ela repete uma frase que virou quase um ritual: ‘Glória a Deus’. Entre um vídeo varrendo ruas e outro durante a coleta de lixo, ela fala sobre fé, bom humor e a importância de encontrar motivos para seguir em frente. O que muitos dos 100 mil seguidores no TikTok não imaginam é que aquela alegria foi construída sobre uma história marcada por luto, abandono e recomeços. "Eu sempre mostro minha rotina. Agradeço o dia e a oportunidade de poder recomeçar. Temos que agradecer por isso. É um serviço puxado, ficamos no sol, na chuva, mas não adianta sair de casa reclamando. Temos que agradecer a oportunidade de viver, porque nem todos têm essa oportunidade", disse. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Uilma trabalha como gari em Uberlândia desde 2020 Reprodução/Redes Sociais Natural de Umburanas, na Bahia, Uilma mora em Uberlândia desde 2020. É casada com Gustavo Andrade e mãe dos gêmeos Alisson e Anderson, de 15 anos, e de Nicollas, de 9. Foi na cidade mineira que ela começou a trabalhar como gari e, ao mesmo tempo, viu os vídeos gravados de forma despretensiosa ganharem alcance nas redes sociais. Mas a disposição para encontrar beleza no cotidiano nasceu muito antes da internet. Uma infância dura Aos 7 anos, ela perdeu a mãe, Neuraci Lopes, vítima de câncer de mama aos 29 anos. A lembrança daquele período ainda guia a forma como encara a vida. "Eu tive uma infância dura. Via minha mãe lutando pela vida, chorando dia e noite. Ela se foi muito cedo e eu procuro levar ela como exemplo. Por isso busco agradecer sempre." Neuraci Lopes, mãe de Uilma Reprodução/Redes Sociais Depois da morte da mãe, Uilma foi morar com o pai e a madrasta. Ela conta que viveu anos sob violência e negligência. "Eu me sentia muito rejeitada. Eles me batiam, escondiam comida. Meu pai sabia de tudo e não fez questão de me proteger. Aos 12 anos eu não aguentei mais e fugi." Ela passou um período na casa de uma amiga até que, aos 16 anos, decidiu se casar e mudou-se para São Paulo. Hoje, olha para aquela escolha com outro entendimento. "Eu sinto que me casei para poder ter uma casa. Foi uma forma de fugir daquela vida de ficar de casa em casa." Foi na capital paulista, dentro de um ônibus a caminho de Pinheiros, que conheceu Gustavo Andrade, atual marido. Segundo ela, ele a via com frequência no trajeto até criar coragem para puxar conversa. O relacionamento levou a família para Uberlândia, onde Uilma começou a trabalhar como gari. "Logo que cheguei comecei a trabalhar como gari e hoje vivo a minha melhor fase." LEIA TAMBÉM: PF indicia pai e filhas por esquema milionário de tráfico de drogas Mãe diz que influenciadores 'seduzem e fazem parecer que ganhar dinheiro é fácil' Com Maradona tatuado, brasileiro sonha com o tetra da Argentina Sua melhor fase Gari transforma rotina de trabalho em mensagens de gratidão Nos vídeos publicados diariamente, ela costuma registrar encontros com moradores, cumprimentos recebidos durante o expediente e mensagens de fé. Católica, diz que nunca deixou de acreditar que Deus conduzia seus passos, mesmo nos momentos mais difíceis. "Na minha história de vida Deus sempre esteve presente. Ele nunca me deixou desamparada. Por isso eu falo 'glória a Deus'. Isso me faz muito bem". A devoção a Santa Luzia também ocupa um espaço especial na história da família. Uilma conta que, ainda criança, teve uma experiência que interpreta como um sinal de que seria mãe de gêmeos — o que, anos depois, realmente aconteceu. Um dos filhos nasceu com um problema de visão, o que reforçou, segundo ela, a ligação com a santa. Apesar das cicatrizes deixadas pelo passado, é o presente que ela prefere mostrar a quem a acompanha. "Hoje eu sou feliz. Não tenho do que reclamar. Muita gente não imagina que por trás dessa alegria já houve muitos momentos tristes. O que eu falo é que temos que acordar e agradecer, nunca reclamar." Uilma e o marido Gustavo Reprodução/Redes Sociais VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas