Ex-advogado de Assange e juiz de 92 anos: as figuras chave no julgamento de Maduro nos EUA
Montagem da BBC mostra Nicolás Maduro (abaixo, ao centro) junto com figuras que participarão de seu julgamento em Nova York Getty Images via BBC O ex-presiden...
Montagem da BBC mostra Nicolás Maduro (abaixo, ao centro) junto com figuras que participarão de seu julgamento em Nova York Getty Images via BBC O ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, devem comparecer frente à Justiça americana pela segunda vez após sua captura na capital venezuelana, Caracas, no dia 3 de janeiro, quando foram levados para os Estados Unidos para julgamento. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp A segunda audiência de Maduro está programada para esta quinta-feira, 26 de março. No seu primeiro comparecimento ao tribunal em Manhattan, no dia 5 de janeiro, Maduro se declarou inocente das quatro acusações. Elas incluíam participação em uma conspiração com grupos considerados terroristas, conspiração para tráfico de cocaína para os Estados Unidos e a posse e uso de armas ilegais (basicamente, metralhadoras) para conduzir a suposta conspiração. Desenho mostra Nicolás Maduro durante audiência na Justiça As forças americanas capturaram Flores ao lado do marido. Ela também se declarou inocente. Ao chegar a Nova York, o casal foi encaminhado para a sede da DEA (a agência antidrogas dos Estados Unidos) e está detido no Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn. Mapa de Nova York com local do julgamento de Nicolás Maduro e da prisão onde ele está sendo mantido BBC Após a deposição de Maduro, Caracas e Washington restabeleceram relações diplomáticas em março, depois de um hiato de sete anos. A Casa Branca reconheceu formalmente a presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez (ex-vice de Maduro), como a "única líder" do país. Analistas afirmam que estes processos podem levar vários meses até o julgamento, segundo a imprensa americana. Mas quem são as figuras chave na batalha legal envolvendo Maduro e sua esposa? Maduro foi capturado em Caracas e levado para julgamento nos Estados Unidos Reuters O juiz Quando Nicolás Maduro compareceu pela primeira vez à Justiça, ele ficou diante do juiz Alvin Hellerstein, que pediu a ele que confirmasse sua identidade, para que o processo pudesse começar. "Senhor, sou Nicolás Maduro. Sou presidente da República da Venezuela e estou sequestrado desde 3 de janeiro", declarou ele calmamente, em espanhol, aguardando que o intérprete traduzisse suas palavras. "Fui capturado na minha casa, em Caracas, Venezuela." O juiz de 92 anos o interrompeu rapidamente, dizendo que haveria "tempo e lugar para detalhar tudo isso". Hellerstein supervisionou diversos casos importantes e vem cuidando do processo contra Maduro desde seu indiciamento e acusações de tráfico de drogas, em 2020. No mesmo processo, outro réu — o ex-chefe de inteligência da Venezuela, Hugo Armando Carvajal — já se declarou culpado. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, Hellerstein trabalhou como advogado no Exército americano, antes de iniciar a prática privada. Ele foi nomeado para o Distrito Sul de Nova York em 1998, pelo então presidente Bill Clinton (1993-2001). Hellerstein presidiu casos civis relacionados aos ataques de 11 de setembro de 2001, bloqueou tentativas do governo Trump de deportar supostos membros de gangues venezuelanos sem audiência na Justiça e rejeitou o pedido do presidente Trump de transferir sua ação sobre suborno para a Justiça federal. Hellerstein também julgou uma disputa entre a herdeira e estrela de TV Paris Hilton e uma empresa italiana do setor de lingerie. Hilton pediu US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 7,8 milhões) por royalties não pagos e a companhia a culpava por atrasos na aprovação. Mais recentemente, o juiz sentenciou Charlie Javice, fundador de uma startup do setor de tecnologia, a mais de sete anos de prisão por fraude contra o banco de investimentos J. P. Morgan Chase e condenou Bill Hwang, fundador do falido fundo de hedges Archegos, a 18 anos de prisão, em outro caso de fraude. O juiz também ordenou a liberação de fotografias do governo americano que documentavam a tortura de detentos no Iraque e no Afeganistão. Citando fontes, o portal de notícias americano Politico descreveu Hellerstein como juiz "das antigas", que frequentemente adota técnicas incomuns, incluindo ligações telefônicas diretamente aos promotores. Na segunda audiência de Maduro nesta quinta-feira (26), espera-se que Hellerstein analise se Maduro deve ser autorizado a usar fundos do governo venezuelano na sua defesa contra as acusações americanas de tráfico de drogas. Em fevereiro, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos revogou uma exceção às sanções financeiras americanas contra a Venezuela, que permitia ao governo do país financiar sua defesa. O juiz Alvin Hellerstein já tratou de diversos casos célebres Getty Images via BBC A equipe de defesa Maduro contratou o famoso advogado americano Barry Pollack para agir em sua defesa. Pollack é conhecido por defender o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e conseguir sua libertação da prisão no Reino Unido em 2024. Ele é sócio do escritório de advocacia de Wall Street Harris St. Laurent & Wechsler, com sede em Manhattan. Ele também é professor do Centro de Direito da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, e membro do Colégio Americano de Procuradores do Estado. Pollack foi descrito como "advogado minucioso e de reflexão profunda", que "vive, respira e sonha com os julgamentos", segundo a publicação analítica e de pesquisa jurídica Chambers USA. Ele negociou o acordo de Assange, pondo fim a uma batalha legal que durava uma década. Assange se declarou culpado de uma acusação americana de espionagem e foi sentenciado aos anos que passou em detenção e confinamento no Reino Unido. Pollack também já obteve absolvições e ajudou a reverter condenações erradas. Elas incluem a de Martin Tankleff, que passou 17 anos na prisão por ter sido acusado erroneamente de assassinar seus pais, e Michael Krautz, ex-contador da empresa Enron que enfrentava acusações de fraude criminal após o colapso da gigante da energia. Na primeira audiência de Maduro, a imprensa americana informou que Pollack questionou a legalidade da sua captura pelas forças americanas. Ele defendeu que Maduro tem direito a imunidade, como chefe de um Estado soberano. A esposa de Maduro, Cilia Flores, foi representada separadamente pelo advogado Mark Donnelly, de Houston, no Estado americano do Texas. Ele é ex-promotor do Departamento de Justiça e sua experiência se concentra em crimes do colarinho branco, segundo o website do seu escritório. Donnelly afirmou que Flores havia sofrido "lesões significativas" durante a operação militar que levou à sua captura e pediu um exame médico completo. A acusação A acusação está a cargo da Procuradoria Federal do Distrito Sul de Nova York. A Procuradoria é chefiada pelo procurador federal Jay Clayton, que assinou a acusação contra Maduro e sua esposa. Em novembro, a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, nomeou Clayton para liderar uma investigação sobre as ligações do criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein (1953-2019) com membros importantes do Partido Democrata e grandes instituições financeiras. Uma das principais advogadas no caso de Maduro é Amanda Houle, chefe da divisão criminal da Procuradoria. Ela retornou recentemente ao órgão, após atuar na iniciativa privada. Entre 2015 e 2023, Houle trabalhou no Distrito Sul de Nova York em diversos cargos de alto escalão, incluindo a chefia da Unidade de Narcóticos. Durante a audiência de acusação de Maduro, em 5 de janeiro, o vice-procurador federal Kyle Wirshba falou em nome do governo. Wirshba é membro da unidade de segurança nacional e internacional de narcóticos da Procuradoria. Ele tem histórico de lidar com casos importantes, relacionados ao tráfico internacional de drogas. Ele participa da ação contra Maduro desde a acusação inicial do líder venezuelano, em 2020. Antes disso, ele teve papel importante no processo contra o ex-general venezuelano Cliver Alcalá Cordones, que foi aliado de Maduro e se declarou culpado de fornecer apoio material às guerrilhas colombianas das Farc. Wirshba também processou a gangue venezuelana Trem de Aragua e seu suposto líder, Héctor Rusthenford Guerrero Flores, indiciado como réu ao lado de Maduro neste caso. Ele é um dos procuradores na ação contra o mexicano Jesús Méndez-Vargas, líder de cartel extraditado para os Estados Unidos no ano passado. E também participou da equipe de acusação que obteve a condenação do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022).