Cães processam a fala de forma mais parecida à dos humanos do que se acreditava
Mulher brincando com cachorro no evento. Daniella Araujo. Assim como os humanos, os cães tendem a se basear mais nas consoantes do que nas vogais para identifi...
Mulher brincando com cachorro no evento. Daniella Araujo. Assim como os humanos, os cães tendem a se basear mais nas consoantes do que nas vogais para identificar os limites das palavras na fala, segundo sugere um estudo liderado por pesquisadores húngaros e publicado na revista Science. O cérebro dos cães divide a fala em palavras de uma maneira que, até agora, só havia sido observada em seres humanos, indica a pesquisa liderada pela Universidade Eötvös Loránd (ELTE). 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Os resultados apontam que o processamento eficiente da fala não é necessariamente consequência de capacidades linguísticas exclusivas dos seres humanos; podem existir formas semelhantes em ambas as espécies, sem a necessidade de capacidades tipicamente humanas. Agora no g1 O viés consonantal Em muitas línguas humanas, as consoantes costumam fornecer informações mais úteis para identificar palavras do que os sons vocálicos. De fato, os bebês recorrem cada vez mais às consoantes para segmentar a fala contínua por volta do primeiro ano de vida, afastando-se de sua dependência inicial maior em relação às vogais, que são acusticamente mais proeminentes. A equipe investigou se esse viés consonantal é especificamente humano – resultante da aquisição da linguagem – ou se poderia surgir em outras espécies expostas à fala humana. Para esse objetivo, cães de companhia são um modelo mais útil do que cães de laboratório, pois os primeiros ouvem a fala humana diariamente. Além disso, são capazes de detectar mudanças em sons individuais e de extrair palavras da fala humana contínua. Os cães diferem quanto à quantidade de fala humana a que são expostos nos estágios iniciais da vida, o que permite examinar se a exposição precoce à fala influencia o desenvolvimento de um viés consonantal. O estudo A equipe comparou as respostas de eletroencefalograma nos cérebros de 20 adultos e de igual número de cães enquanto ouviam sequências contínuas de palavras sem sentido, compostas por três sílabas. As palavras seguiam padrões baseados em consoantes ou em vogais, e um terceiro grupo não apresentava padrões lexicais consistentes. Nenhum dos sons indicava claramente onde uma palavra terminava e outra começava. Embora as vogais carregassem mais energia acústica e, portanto, fossem mais proeminentes do ponto de vista perceptivo, o desenho do estudo permitiu verificar se humanos e cães seguiam preferencialmente os padrões lexicais baseados em consoantes. Os resultados destacam que os cães, assim como os humanos, tendem a se basear mais nas consoantes do que nas vogais ao identificar os limites das palavras na fala. Como as vogais do experimento tinham maior intensidade acústica, a preferência pelas consoantes não pode ser atribuída simplesmente ao fato de os sons mais fortes serem ouvidos, explicou a revista. Em vez disso, é possível que as consoantes sejam mais úteis para detectar padrões que ajudem a dividir a fala contínua em palavras. Essa tendência também foi observada em cães que haviam sido expostos à fala humana tanto em uma fase inicial quanto em uma fase posterior. Essa circunstância sugere que não é necessária uma exposição precoce prolongada e que o aprendizado estatístico (a capacidade de reconhecer padrões recorrentes) pode ser suficiente para gerar esse comportamento. A equipe considera que a preferência dos cães por consoantes pode refletir, por um lado, sua história de domesticação e sua exposição à linguagem humana, mas também uma capacidade auditiva ou cognitiva mais ampla, anterior à domesticação.