A 'faxina' que o cérebro faz durante o sono e que a insônia pode atrapalhar
Fantástico mostra as causas e os caminhos para derrotar a insônia Enquanto dormimos, o cérebro não descansa completamente. Pelo contrário: é nesse períod...
Fantástico mostra as causas e os caminhos para derrotar a insônia Enquanto dormimos, o cérebro não descansa completamente. Pelo contrário: é nesse período que entra em ação um dos mecanismos mais importantes para a saúde do órgão, uma espécie de sistema de limpeza responsável por eliminar resíduos acumulados ao longo do dia. Pesquisas recentes têm ajudado os cientistas a entender melhor esse processo e a explicar por que noites mal dormidas podem trazer consequências que vão muito além do cansaço do dia seguinte. Segundo especialistas ouvidos pelo Fantástico, durante o sono profundo o cérebro ativa um mecanismo conhecido como sistema glinfático, responsável por remover toxinas e produtos do metabolismo que se acumulam entre as células cerebrais. Quase um terço dos adultos nas capitais tem sintomas de insônia; especialistas alertam para riscos à saúde Como funciona a limpeza do cérebro O processo acontece graças à circulação do líquor, fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal. Durante o sono, os espaços entre as células cerebrais aumentam, permitindo que esse líquido circule com mais facilidade. É como se ruas estreitas se tornassem avenidas temporariamente mais largas, abrindo caminho para a retirada de resíduos produzidos pela atividade cerebral ao longo do dia. A comparação ajuda a entender por que especialistas costumam se referir ao fenômeno como uma verdadeira "faxina" cerebral. Quando a pessoa dorme pouco ou tem um sono fragmentado, essa limpeza não ocorre de forma adequada. O que acontece quando a faxina falha De acordo com os pesquisadores, noites mal dormidas favorecem o acúmulo de proteínas como a beta-amiloide e a tau, que estão associadas ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, especialmente o Alzheimer. O neurologista Diego Carvalho explica que o problema não surge após uma única noite ruim. "Não é algo que acontece de uma noite para o dia. É um problema crônico e, conforme a gente envelhece, acaba ficando um pouco mais difícil de reverter", afirma. Segundo ele, a repetição de noites mal dormidas reduz a capacidade de recuperação do cérebro ao longo dos anos. "Diversas noites mal dormidas, sem aquela recuperação, acabam levando a uma maior tendência ao acúmulo dessas proteínas, que leva à morte neuronal com o tempo", diz. Insônia e risco de demência A preocupação não é apenas teórica. Estudos recentes vêm encontrando associações entre insônia crônica e um maior risco de comprometimento cognitivo. Segundo Diego Carvalho, uma pesquisa da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas com mais de 60 anos e insônia crônica apresentam risco cerca de 40% maior de desenvolver demência nos cinco anos seguintes. Especialistas ressaltam, porém, que a qualidade do sono é apenas um dos fatores envolvidos no desenvolvimento dessas doenças e que a prevenção também depende de hábitos de vida saudáveis e do acompanhamento médico adequado. Os riscos vão além do cérebro As consequências da insônia não se limitam à memória e à cognição. "A insônia está associada com problemas cardiovasculares também, aumento do risco de ter um AVC, um derrame, ou de ter um problema cardíaco", afirma Diego Carvalho. Além disso, a falta de sono interfere no humor, na capacidade de concentração, no desempenho profissional e na disposição para atividades cotidianas. Foi o que aconteceu com Vitória, de 30 anos, que convive com dificuldades para dormir desde a infância. "Eu me sinto fraca. Eu me sinto como se tivesse drenado minha energia", relata. Já Patrick, de 35 anos, afirma que a privação de sono chegou a afetar sua atenção durante o trabalho. "Estava com tanto cansaço que meu olho fechou na hora", conta. É possível recuperar o sono? A boa notícia é que especialistas afirmam que a maior parte dos casos de insônia pode melhorar com mudanças de hábitos. Manter horários regulares para dormir e acordar, evitar telas antes de se deitar, reduzir o consumo de cafeína no fim do dia e buscar exposição à luz natural pela manhã são algumas das estratégias recomendadas Segundo o psiquiatra Alexandre Azevedo, do laboratório do sono da USP, os medicamentos não costumam ser a primeira opção. "A medicação não vem antes das medidas comportamentais", afirma. A orientação dos especialistas é procurar ajuda quando a dificuldade para dormir se torna frequente e começa a afetar a rotina. Afinal, dormir bem não serve apenas para descansar: é também uma etapa essencial da manutenção e da proteção do cérebro. Fantástico mostra as causas e os caminhos para derrotar a insônia Reprodução/TV Globo GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.